Artes de abrir espaço: apontamentos para a análise de práticas em trânsito entre arte e ativismo

Enviado por ex0d0, qua, 2016-06-15 10:22


São Paulo

{artigo}

Publicado originalmente em

Cadernos de Arte e Antropologia, Vol. 4, n° 2/2015, pag. 13-27

{introdução}

"A visibilidade de protestos e grandes mobilizações populares, em diferentes partes do mundo, reativou a partir de 2011 (no caso do Brasil, 2013) questões importantes sobre os modos de ação, expressão e organização social e política. O 15M e a ocupação da Praça do Sol em Madri, as revoltas da chamada “Primavera Árabe”, o movimento Occupy nos Estados Unidos, entre outros processos, reinstalaram no cenário político e no imaginário global as praças tomadas por multidões, as imagens de manifestantes desafiando forças policiais e inventando formas de reivindicar, reunir-se, fazer-se ver e ouvir. Assim como nos anos de passagem do século XX para o XXI, no contexto da onda de manifestações que convencionou-se chamar de movimento antiglobalização, uma nova vitalidade dos protestos de rua - sempre cercados por debates sobre sua eficácia e legitimidade – se introduz como elemento irrefutável da experiência social e política do presente. Enquanto proliferam as imagens e discursos a respeito desses protestos, expectativas sobre o futuro também são postas em movimento: nos perguntamos se e como estes momentos de efervescência podem a mudar ordem das coisas. A relação entre as formas da ação coletiva e a possibilidade de transformação das relações de poder se recoloca como problema vivo, em um presente marcado pela concentração de riqueza sem precedentes em nível mundial (Oxfam 2015),2 dominado em grande medida pelo sentimento de eminência das catástrofes climáticas provocadas pela ação humana, pela militarização das políticas de controle social sob a pauta do combate ao terrorismo e da guerra às drogas, e, notadamente, pelo desgaste e o descrédito das formas políticas representativas (Nunes 2014:9).

2Neste cenário, a emergência do termo artivismo, como categoria analítica, marca um interesse, político e teórico, em formas de ação coletiva cujo efeito e possíveis interpretações não se esgotam na taxonomia da provável orientação ideológica dos participantes, nem na possível funcionalidade que possam cumprir no jogos político-eleitorais e midiáticos das democracias representativas, cuja explicação não termina na identificação dos fatores contextuais, históricos ou socioeconômicos que fomentaram sua erupção. Por um lado trata-se de formas histórica e simbolicamente associadas ao ativismo, ao protesto, a irrupção de processos coletivos de auto-organização, denúncia e reivindicação de direitos, acirrados em momentos de crise econômica e social, que mesmo quando relativamente autônomos em relação às estruturas organizativas e instituições precedentes (partidos, sindicatos, movimentos setoriais), mobilizam recursos e repertórios próprios do campo de relações que nos acostumamos a chamar de política. Ao mesmo tempo, trata-se de experiências coletivas mal contidas pelas fronteiras convencionais da política em sentido estrito, formas de dissenso e reivindicação que mais se aproximam à dimensão cotidiana dos “modos de vida” e “contraculturas” do que das estruturas programáticas e ideológicas que o senso comum atribui aos movimentos sociais. Ao mesmo tempo em que habitam o universo da ação e da organização política, trata-se de modos de intervenção notavelmente ligados a práticas experimentais próprias dos mundos da arte ou, em muitos casos, explicita ou implicitamente informadas pela história do deslizamento da práticas artísticas para fora do campo de autonomia que define a arte moderna, ao encontro de outras dimensões da vida social (Wright 2014:12).

3Nos termos propostos pela pesquisadora Ana Longoni para pensar o “ativismo artístico”, o desafio é entender em que se funda a radicalidade de práticas que não se prestam a ser analisadas exclusivamente nem sob o critério de sua eficácia política, nem sob o critério de sua natureza “artística” (Longoni 2009:34), já que parecem precisamente ultrapassar as convenções de ambos os campos. Ao apontar, nos processos contemporâneos de mudança social, uma radicalidade ou potência que não pode ser explicada em termos de eficácia institucional ou identidade ideológica, o termo artivismo propõe um foco de análise dirigido às sobreposições e intersecções entre experiência política e experiência estética. O neologismo ainda sugere que a análise dessas formas de ação de difícil definição representa um desafio inclusive do ponto de vista lexical: arte, ativismo, estética e política, entre outros termos correlatos, são ao mesmo tempo insuficientes e demasiadamente vagos para dar conta do que queremos descrever.

4A proposta deste texto de cunho teórico é delinear alguns problemas relevantes para uma abordagem interdisciplinar dessas formas híbridas, reunidas ainda que provisoriamente sob a noção de artivismo. Faremos isso colocando lado a lado questões transversais a pesquisas etnográficas desenvolvidas por alguns autores sobre formas de protesto e organização política associadas aos ditos movimentos antiglobalização e altermundialistas (Di Giovanni 2012 e 2015) e algumas análises sobre eventos e ciclos posteriores de agitação criativa em diferentes partes do planeta, em particular os movimentos de ocupação de praças públicas no Estado Espanhol e nos Estados Unidos a partir de 2011. O que se pretende não é um exame sistemático desses processos – sobre os quais uma existe bibliografia crescente - mas recuperar nas análises dedicadas a eles um motivo condutor que nos permita apresentar a complexidade dos cruzamentos entre experiência política e criação estética nas formas contemporâneas de ação coletiva. Tomaremos como fio condutor da análise as noções de “ocupação” e “espaço aberto” – comuns às formas políticas ditas criativas a partir da segunda metade da década de 1990 – e discutir sua importância seja como forma recorrente dos processos coletivos, seja na constituição de um modelo de análise que coloca em foco sua dimensão poética e performática. Explicitando alguns dos potenciais e limites dessas noções, encontramos novas perguntas: como se produz uma “ocupação”? Que modos de fazer, dizer ou representar estão implicados na criação de “zonas autônomas temporárias”? Como estas figuras de ação e pensamento atualizam a relação entre estética e política, entre a manipulação das formas sensíveis e a transformação ativa das relações de poder? Tais questões – aqui apenas levantadas – convidam-nos a afastar nosso foco da discussão sobre a natureza do artivismo para propor uma abordagem etnográfica dos modos de fazer que constituem uma dimensão da ação social comum entre ativismos e processos artísticos, enquanto procedimento fundamental à conceituação deste terreno da experiência contemporânea feito de práticas em trânsito entre arte e política, que contravêm e manipulam as fronteiras entre os dois termos. (...)"


2015


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